O pensamento, e suas relações com o mundo e com a subjetividade, é uma personagem central da trama filosófica – e foco de uma crescente atenção científica – e tem recebido atenção direta ou indireta nas diversas correntes filosóficas nos últimos anos. Entre as tradições filosóficas diretamente influenciadas pela fenomenologia em geral e por Heidegger em particular, vale invocar aqui a reflexão que se desdobrou das observações de Heidegger sobre as relações entre o pensamento e o ser e como estas se conectam com nossa existência: em que sentido de esforço podemos dizer que o pensamento requer esforço e irrompe do senso comum ao invés de acatá-lo? A tradição fenomenológica chama a atenção para as relações entre os atos de pensamento e os conteúdos de pensamento; um esforço é o de determinar se podemos ter atos de pensamento sem nenhum conteúdo de pensamento e vice-versa.
Nas tradições filosóficas de alguma maneira herdeiras de Wittgenstein, Austin, Quine e Sellars, a discussão acerca do pensamento ocorre nas intersecções entre epistemologia, filosofia da mente, filosofia da linguagem e filosofia da ação. O debate recente acerca dos diversos tipos de externismo, iniciado por Putnam nos anos 70, traz a tona a questão de se o pensamento é uma variável independente dos outros eventos no mundo. A questão pode ser tratada em suas relações com a estrutura causal que torna possível a percepção, em relação com a natureza da experiência ou da relação entre pensamento e verdade. Um ponto relevante aqui é a relação entre pensamento e conhecimento: quanto conhecimento – do mundo, de nós mesmos e das expectativas e crenças das pessoas à nossa volta - é necessário para que possamos pensar. Este ponto pode nos fazer dirigir a atenção para a origem do pensamento; como o pensamento surgiu em um processo de evolução da espécie. O tema, por sua vez, invoca os tópicos wittgensteinianos da vida mental dos animais não-humanos e das crianças em fase pré-conceptual. Igualmente interessante são as conexões entre pensamento e reconhecimento – e, portanto, entre os conteúdos de pensamento e o significado, o erro, a interpretação e a corrigibilidade. Neste contexto vale investigar que formas de holismo acerca do pensamento podem elucidar características do pensamento. Nestas tradições também, há um foco na questão da relação entre pensamento e mundo em que o pensamento é de alguma maneira restringido pelo mundo: qual é a natureza de uma tal restrição – alguma forma de experiência, alguma forma de observação confiável do mundo ou simplesmente a inteligibilidade de que possa haver confronto entre nossos pensamentos e o mundo. Por fim, vale mencionar o problema da relação entre pensamentos e desejos (temores, fantasias etc) que conduzem a ação: em que medida nossos conteúdos de pensamento (e nossos julgamentos) são suficientes para motivar a ação.
Nas tradições filosóficas mais diretamente influenciadas pelo estruturalismo e o pós-estruturalismo a questão é tratada em termos das forças que movem o pensamento. Deleuze e Guattari investigam as imagens do pensamento que supomos quando fazemos filosofia e fazem críticas a estas imagens já propondo maneiras alternativas de conceber o pensamento: como estando em um rizoma (e não em uma estrutura radicular ou arbórea), como sendo parte de um fluxo que atua em conjunção com linhas de fuga. Aqui, a discussão sobre a natureza do pensamento encontra diretamente os elementos que procedem da querela do sujeito: uma imagem do pensamento que rejeita a idéia de que o pensamento tem algum reconhecimento como sua condição de possibilidade procura desvincular pensamento e erro e, na medida que consegue fazer isto, consegue dissociar o pensamento de um sujeito que pensa. Os pensamentos, então, aparecem como acontecimentos que não são orientados por um eixo central e, em particular, não podem propriamente ser objetos de posse (não há um pensamento meu, em algum sentido). Uma imagem deste tipo recomenda uma relação entre pensamento e normatividade em que esta última não está de maneira alguma constituindo o primeiro. Este modo alternativo de entender o pensamento permite um vínculo forte entre a política do pensamento e os agenciamentos a que atendem grupos humanos.
Também merecedor de atenção é o esforço de um número de disciplinas científicas em elucidar questões associadas ao pensamento. Em particular, nos últimos anos a questão interessa às ciências cognitivas - em particular no esforço de propor e criticar modelos computacionais da mente - às neurociências - em particular na empreitada de elucidar os mecanismos cerebrais e nervosos que caracterizam a atividade mental – a psicologia, a psicanálise e as ciências sociais que se dedicam a entender processos de instauração de mentalidades.
O LABNOUS intenta congregar estes debates provenientes e inspirados por diferentes tradições e fazê-los dialogar. Uma idéia norteadora é que o pensamento pode e deve ser visto de diferentes perspectivas para que possamos consolidar reflexões sobre ele.