Reflexões produzidas por Deleuze e Guattari provavelmente lidos a contrapelo
Hilan Bensusan
<<O pensamento é um enorme corpo sem órgãos>>
1.Uma filosofia do pensamento: no capítulo 3 de D&R Deleuze critica a idéia de começo em filosofia como sendo um começo sem pressupostos que não é levada à sério. Há talvez um conflito entre se opor ao senso comum e não ter pressupostos: o pressuposto inicial é o senso comum (a doxa) ao qual queremos nos contrapor. A filosofia pressupõe uma imagem do pensamento que, se não é oposta diretamente, tende a ser assumida implicitamente. Deleuze propõe uma ruptura com esta imagem por meio de uma imagem alternativa de pensamento segundo a qual o pensamento não ocorre sempre (Cogitatio não é naturalis), a doxa não é o modelo de direito do pensamento e o ato paradigmático de pensamento não pe o reconhecimento de um objeto ou de um valor––o reconhecimento é a pista na direção da conformação e da complacência, é a verdade disciplinada que não ameaça e não faz mal a ninguém. O pensamento deve readquirir a capacidade de fazer mal, readquirir um caminho independente de qualquer recognição––por exemplo, da reconhecimento do eu. Kant aponta na direção certa quando ele explora os subterrâneos do pensamento, mas ele permite que escorreguem para o subterrâneo as suposições do eu empírico que pensa a partir de si. (Pô, nada disso)
2.Parece surgir uma imagem do pensamento puro, que não requer para surgir nenhum reconhecimento (nenhum conhecimento). É como se o projeto cartesiano fosso levado agora às últimas conseqüências, liberto das suposições de um ego que traz consigo as suposições da doxa. E, no entanto, não se trata de separar o sujeito do resto do mundo pois as máquinas produtoras (e não representadoras) que constituem o pensamento são máquinas que se misturam com o mundo e com as multidões (comunidades são multidões reconhecidas, multidões domesticadas por um reconhecimento). Este elo, no entanto, não é um elo de conhecimento. Poderia talvez ser um elo de conhecimento holístico em que alguma coisa não específica podemos saber.
3. Jardins: os tipos de knothiseautonphobia: a crença de que o eu é uma caixa preta que não deve ser aberta, de que não tem nada dentro – que patinaremos – (estes dois tipos me dão medo), de que não há eu (esquizo: as possibilidades esquizo são possibilidades a serem consideradas; o núcleo do eu escapa, não existe, o pensamento voa mais livre), etc
4. Imagens do pensamento: a imagem da natureza versus a imagem da norma. O pensamento como uma força e o pensamento como produto de normas. Há alternativa entre estas duas imagens, a imagem do pensamento natural e a imagem do pensamento que emerge de normas?
5. “Hegel voulait ridicularizer la multiplicité”, em Nietzsche diz Deleuze (cf Michael Hardt). A historicidade trabalha para por a multiplicidade em uma parada; o pensamento é o processo das Anerkennungen. E, no entanto, Hegel também chama a atenção para vivacidade do conceito e a não-imediatidade do pensamento; os temas do problema e do fundamento (fundar é transformar o que antes não era fundado) no DR3, bem como a insistência no trabalho (vivo) do pensamento, são temas do Hegel de, pelo menos, WdL?.
6. Deleuze parece querer promover uma transformação atonalista no pensamento. Os subterrâneos das relações de reconhecimento, a ruptura com todos os pressupostos do senso comum, o descompromisso do pensamento com a verdade. José Gil, em Movimento Total, insinua que o movimento que Deleuze faz é comparável a ruptura que Cunningham promoveu na dança––a fragmentação do corpo, a preocupação com os subterrâneos do mecanismo de representação/auto-reconhecimento/pensamento interpretável/Anerkennung, a ruptura com qualquer trama (histórica, programática). O pensamento fica parecendo um estoque de ferramentas com as quais podemos jogar um jogo muito diferente.
7. Uma resposta Deleuze a pergunta: como pode o cérebro (ou a mente ou o pensamento) ser sobre o mundo? Resposta: por estar em um rizoma, em uma grama, por ter linhas de fuga, por começar no meio do mundo, começar no meio e não no começo ou no fim (ver Diálogos, 52-3). O pensamento não começa em uma estaca zero desconectada do mundo e nem é vocado para ser sobre algo, mas ele começa espalhado e se espalha mais sobre o mundo––em certo sentido, esta é uma concepção Wittgensteiniana (ver PU 21, acho), as relações entre pensamento e mundo são horizontais sempre, e tem variadas formas. Uma grama, um certo sistema nervoso que se expande de variadas maneiras. O pensamento é feito de linhas de fuga, as linhas de fuga possibilitam a perspectiva (e, portanto, a representação e o reconhecimento), mas as linhas de fuga se expandem sempre para outras coisas. O pensamento começa com uns conhecimentos e pode se expandir para todas as partes.
8. CsO? e chora: Uma maneira de entender corpos sem órgão é entender um corpo ininterpretável, um corpo material puro––chora. Esta chora é atingível no estado de catatonia. Trata-se da convergência de linhas de fuga, não de um lugar para ir, mas de uma destinação para fugir. É um ponto de fuga. Como a diferença: ela não é um conteúdo-não-conceptual, mas é antes um ponto de fuga que faz a singularidade dar contraste para os conceitos universalizados, as determinações que não enxergam o acontecimento singular. Diferença e repetição vem em um ritmo, não como elementos separáveis: o devir da diferença não é uma diferença pura, é uma nova possibilidade de repetição que fugiu de uma outra repetição. Não interessa os lugares que estamos, mas os lugares para onde queremos (ou intentamos, ou podemos) fugir. Não é o conceito aplicado no caso singular, o que interessa é o caso singular que aponta para a falha da determinação, a fissura, o ponto de fuga que mostra que desejamos o que é diferente. O CsO? não é um corpo que temos, mas é o ponto de fuga do hilemorfismo.
9. Linhas de fuga e perspectiva: o pensamento requer perspectiva, reconhecimento, exercícios conceituais e conhecimento do mundo. Mas estas coisas se articulam em função das linhas de fuga que se expressam na ignorância, no erro, na besteira, na irrelevância: as linhas de fuga são agenciadas por uma concepção do pensamento em que a normatividade é pensada apenas em termos de correto e incorreto e não de devir-correto. As linhas de fuga é que permitem que o pensamento crie, são elas que dão a corda ao pensamento que então se torna um devir de outras coisas.
10. Devires: a escritura, diz Deleuze em Da Superioridade da Literatura Anglo-Americana, é feita de linhas de fuga e devires; escreve-se não por uma minoria, mas com os olhos em uma minoria que é devir, que não escreve. Flaubert não é Bovary, mas tenta um devir-Bovary que não é senão uma linha de fuga para como ele se encontra. Deleuze exalta a traição que é criação em oposição à trapaça (francesa) que pretende instaurar uma nova ordem. Quem escreve quer fugir por uma linha, devir outra coisa, deixar de ser reconhecido (pelo menos enquanto escreve, mesmo que queira o reconhecimento depois). As fantasias são espécies de trapaça, de culpa, de ressentimento e de castração e não um plano de vôo, um guia de experimentação. Ele diz (p. 61): “Experimentem, nunca interpretem. Programem, nunca fantasiem”.
11. Deleuze associa a ação e a criação com a fuga, com a desterritorialização, côo a ruptura com um agenciamento. Os agenciamentos, sempre coletivos, falam, enunciam. O autor, não o escritor, fala por agenciamentos: o escritor inventa agenciamentos a partir dos agenciamentos que o inventaram. Neles agimos, por amor é que devíamos morrer. Devemos nos desviar de dois pólos, a gorda mãe das identidades e o frio médico social que apenas investiga e interpreta: não podemos estar fora dos agenciamentos e eles não são nossa identidade––temos as linhas de fuga. Precisamos fazer a nossa própria cama, ninguém virá cobrir-nos (comparar com as penínsulas de Oz). Temos apenas a força das nossas simpatias, armas no meio de armas.
12. Deleuze compara o empirismo aos romances ingleses. Não há princípio, mas vida e a idéia de que relações são externas. O empirismo, como a língua inglesa (dominante e furada por suas minorias), é a substituição do “é” pelo “e”, a conjunção da experimentação, da justaposição sem estrutura, sem predicação.
13. O CsO? e as multidões (matilhas e não massa, mundanidade e não socialidade): no segundo plateau (um ou muitos lobos), D & G falam da multiplicidade não-crucificada, o inconsciente aparece como povoamento e não como geração. Faço a seguinte imagem: os agenciamentos (conscientes)––por exemplo o agenciamento do sujeito––só são possíveis produzindo muito lixo de pensamento. Os agenciamentos são recortes que produzem lixo no chão, o chão é o CsO?, o chão é o inconsciente, é o puro corpo, o que sobra das significações que produzem os agenciamentos. O inconsciente não o produtor de desejos ex-nihilo, mas antes é uma usina que processa os left-overs dos desejos agenciados. Esta usina deixa de funcionar para agenciamentos no caso da esquizofrenia: fica apenas a superpopulação mental. Não é uma imagem Hume-Freudiana dos desejos brutos sendo civilizados, mas dos desejos brutos como sendo by-product dos agenciamentos.
14. Discutindo Moleuze (Moran + Deleuze) com Mak Pedroso hoje: para pensar nos desejos como independentes de uma concepção personalista (em uma concepção subpersonalista, por exemplo), devemos abandonar a idéia de desejos como atitudes proposicionais? Uma primeira tentativa de resposta envolve entender desejos como forças naturais e especificações de conteúdos como sendo feitas do ponto de vista de uma terceira pessoa. Uma segunda tentativa pareceu mais interessante (para mim, hilan): emtender que os desejos são instaurados por um sujeito que então, como um Deus leibniziano, desaparece e deixa os desejos atuarem apenas pela força do agenciamento produzido. Ou seja, os desejos são instaurados pelo sujeito, mas não precisam deles para continuar atuando. Aqui podemos pensar no esquizofrênico como sendo alguém que jpa foi um sujeito viável e isto faz com que nele tenha se instaurado desejos - agenciamentos (coletivos) instauram desejos, mas não os controlam, não os assujeitam. A imagem de subjetividade que emerge é uma imagem onde a sujeição pode ser instauradora mas não é a única arquitetônica. Com uma imagem assim, podemos ter vozes de primeira pessoa associadas a cada desejo não-assujeitado e manter (talvez) o discurso de desejos como sendo atitudes diante de proposições.