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Pensamento pós-pronomial

Pode o pensamento, e o campo de ação propriamente humana, acontecer sem pronomes (e em particular pronomes possessivos)? Podemos atribuir posse a pessoas por artifícios como o de associar nomes próprios a objetos (eventos, estados) - isto será ainda dependente de um pronome possessivo tácito; uma atribuição de algo a alguém. Algumas dimensões aparentemente incorrigivelmente pronominais do pensamento:

1. Parece que a distinção entre fatos e normas (ou entre uma necessidade natural que nos mova a, por exemplo, agir de uma certa maneira ou pensar alguma coisa de um lado e o nosso direito - nossas razões, nossas justificações - de agir ou pensar de uma maneira) depende do que admite uma descrição de primeira pessoa e do que não admite. Assim, por exemplo, dizemos que quando não duvidamos de alguma coisa e que esta é uma questão de fato (uma dobradiça, uma conseqüência de um make-up biológico etc) trata-de de algo diferente de ter o direito a não duvidar (por exemplo, ter razões) porque no segundo caso mas não no primeiro a responsabilidade é NOSSA. Aquilo que acontece conosco sem nossa justficação (nossas razões) é, em algum sentido, menos nosso; desculpas para nos isentar de responsabilidade funcionam como uma atribuição de um pronome que não é de primeira pessoa. Normas são dependentes de inflexões pronominais porque elas regem crenças e ações e crenças e ações são tipicamente pronominalizadas - são de alguém.

2. Talvez como uma conseqüência da primeira dimensão, a distinção entre seguir uma regra e, por coincidência ou por pressão externa constante (ou por uma necessidade natural), agir de acordo com a regra é também dependente de inflexões pronominais. Assim, por exemplo, não podemos testar se a pupila aprendeu +2 da maneira que o faça seguir acertando depois de 1000. Atribuímos a ela a regra por trás do exemplos corretos - ela agora viu a regra, capturou-a de uma maneira que fez da regra alguma coisa dela. (A idéia de que possa haver uma linguagem privada é talvez uma conseqüência da pronominalidade da linguagem pública). Só podemos falar de como as coisas são se houver um potencial de correção em como as coisas são - se elas puderem contrastar com como as coisas me parecem (parece que as capacidades conceituais que permitem pensar aparências devem estar presentes para que tenhamos uma capacidade de correção associada a como as coisas são - nossos ancestrais Ryleanos, de Sellars, não poderiam fazer mais do que reagir indiscriminadamente a estímulos, não poderia o discurso sobre as coisas terem capacidade de mudar as respostas de alguém). Tem que haver o "parece-me a mim que é (ou deve ser) assim" e a instância independente que pode corrigir isto.

3. A re-indentificação de indivíduos. Um sapo identifica um poço mas não aquele poço, não identifica o poço em que ele passou tais ou quais experiências (o poço que foi ou é o seu poço). Nós re-indentificamos porque podemos separar aquilo que foi nosso daquilo que não foi.